Emoções, Desculpas e Frontalidade
Em comunicação, cada pessoa tem, em resposta ao desconforto, tiques nervosos diferentes e cada pessoa acaba, consequentemente, por ter reações diferentes. A nível emocional o cenário não é diferente.
Cada pessoa, e cada corpo, reage da sua própria forma. Ao longo do nosso desenvolvimento (apesar de, principalmente na parte da reação corporal, a maioria das reações ser particularmente comum a todos), os nossos comportamentos e pensamentos tornam-se enviesados em relação àquela que foi a nossa experiência, àquela que é a nossa perceção do mundo e, basicamente, a todos os vieses que construímos.
O que é a Frontalidade Emocional?
A frontalidade emocional pode ser definida como a expressão direta e honesta do que sentimos, muitas vezes sem filtros ou eufemismos. É comum confundirmos frontalidade com assertividade, mas enquanto a assertividade comunica com empatia e respeito, a frontalidade emocional nem sempre considera o impacto que a mensagem vai ter no outro.
Este tipo de expressão, quando desregulada, pode transformar-se em agressividade emocional disfarçada de autenticidade. O equilíbrio está em saber dizer o que sentimos sem invalidar ou ferir o outro, algo que exige inteligência emocional e autoconhecimento.
Tudo varia e, por isso, é importante conseguirmos identificar as emoções em nós próprios primeiro e só depois passarmos para o outro. Se eu não conseguir identificar em mim, como é que consigo identificar no outro? No entanto, para algumas pessoas é mais difícil identificar em si pois requer trabalho, requer autodescoberta, requer encontrar informações que não estamos propriamente dispostos a saber.
Será que a maioria das pessoas consegue fazer o processo de autodescoberta sozinha? Qualquer um pode treinar mas é um trabalho bem mais facilitado se for acompanhado, através de acompanhamento psicológico, sendo dada a possibilidade às pessoas de expressarem as suas emoções, de conseguirem guiar-se.
As emoções são um mapa daquilo que estamos a viver num determinado momento e, muitas vezes e inconscientemente, tentamos bloquear essa informação. Não me quero sentir triste, portanto vou pôr isto de lado.
Porque é que isto acontece? Porque não é socialmente aceite, porque não fica bem, porque tenho demasiadas coisas para fazer e não me posso dar ao luxo de ficar triste… Com acompanhamento psicológico, há espaço para termos consciência dessa realidade e a autoconsciência é fundamental em inteligência emocional.
Como Melhorar a Frontalidade Emocional de forma saudável
A palavra do momento é frontalidade. Eu sou uma pessoa muito frontal, digo tudo no momento e na cara da pessoa. Gostou gostou, não gostou põe na borda do prato…
Mas, com certeza, todos nós já ouvimos dizer “a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro” – e este mote está altamente relacionado com a inteligência emocional. Devemos perceber que sim, podemos ser honestos com os demais, mas sempre tendo em conta e valorizando o respeito e a dignidade dos mesmos.
A frontalidade emocional saudável é uma competência e, como qualquer competência, pode ser trabalhada e aperfeiçoada. Como?
- Reconhecer as emoções antes de reagir;
- Usar linguagem neutra e não acusatória;
- Ter empatia para com o outro;
- Evitar justificar frontalidade com frases como “é esta a minha maneira de ser”;
- Praticar o silêncio antes da reação automática.
Imagine um cenário de trabalho. Um colega comete um erro e a sua reação ao erro é: “Isto está péssimo, como é que fizeste uma coisas destas?”. Esta frase, ainda que possa ser honesta, é pouco empática e pode provocar vergonha ou colocar o nosso colega na defensiva.
Vejamos agora se a sua resposta fosse algo como: “Olha, encontrei aqui um erro, talvez te tenha escapado. Queres que te ajude a ver como corrigir?”. Neste cenário, há frontalidade emocional com respeito.
Pequenas mudanças na nossa forma de comunicar fazem toda a diferença no impacto emocional.
Frontalidade Emocional vs Comunicação Assertiva
O espetro de estilos de comunicação vai da passividade à agressividade e, na realidade, o que estimamos ser é assertivos: tentarmos transmitir ao outro, da forma mais neutra possível, sem julgamentos, sem juízos de valor, o que está a acontecer em concreto. Não raramente, por um ou outro motivo, a única coisa que as pessoas querem fazer é criticar, magoar o outro e espremendo essas palavras notamos que não há feedback absolutamente nenhum.
Todos nós já estivemos em alguma situação em que perdemos o controlo emocional e acabamos por nos arrepender por uma de duas razões: o arrependimento que bate quando chegamos a casa e pensamos “realmente não fui correto, devia ter lidado melhor com aquela situação” ou o arrependimento graças aos resultados a posteriori.
Apesar de estarem relacionadas, a frontalidade emocional e comunicação assertiva são conceitos diferentes. A comunicação assertiva é estratégica, consciente e procura um diálogo produtivo. A frontalidade emocional, por outro lado, pode ser reativa, baseada mais no alívio emocional imediato do que na construção de entendimento mútuo.
Frontalidade Emocional
Impulsiva e direta.
Foca-se em expressar-se.
Pode gerar conflito.
Centrada no “eu”.
Comunicação Assertiva
Equilibrada e estratégica.
Foca-se em ser compreendido.
Favorece relações saudáveis.
Considera o “nós”.
Desculpas: Uma Barreira à Mudança
Muita gente diz coisas como: “sou honesto”, “digo o que tenho a dizer”, “sou frontal”, “sou mesmo assim” ou “não tenho filtros”. Estas expressões são muitas vezes usadas como escudos emocionais. Ou seja, funcionam quase como uma desculpa que passam internamente para se justificarem da sua atitude e evitarem o trabalho e esforço que requer a autodescoberta e o autodesenvolvimento que conduzem à inteligência emocional.
Normalmente, pessoas com este tipo de linguagem e perfil são mais solitárias. Contudo, se vivemos numa sociedade é precisamente por o ser humano ser um animal social, que quer estar constantemente em contacto com pessoas.
A partir do momento em que não temos qualquer cuidado na forma como falamos com o outro ou como reagimos perante o outro, vamos ficando cada vez mais isolados e é muito difícil sermos realmente felizes e sentirmo-nos realizados se estivermos sozinhos no mundo.
Justificar comportamentos reativos com frontalidade emocional impede o nosso crescimento. A mudança começa com a aceitação de que ser honesto não deve ser sinónimo de ser insensível.
Devemos olhar para a inteligência emocional como uma chave para a progressão. É uma ferramenta crucial, quer a nível pessoal como profissional, e é algo que custa a desenvolver. Mas, como em tudo na vida, o que tende a dar mais trabalho tende também a dar melhores resultados.
Questões para refletir:
- Quando foi a última vez que disse algo “por frontalidade” e depois se arrependeu?
- Há alguém com quem gostava de conseguir comunicar melhor, mas não sabe como?
- Será que usa a frontalidade como desculpa para se proteger de algo?
A frontalidade emocional é uma ferramenta poderosa quando é usada com consciência. Não se trata de evitar dizer a verdade, mas sim de saber quando, como e com que intenção comunicamos.
Desenvolver esta competência fortalece relações, aumenta o respeito mútuo e permite-nos expressar as nossas emoções de forma autêntica e saudável.
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