A Reformulação nos
Primeiros Socorros Psicológicos
Quando falamos em primeiros socorros psicológicos, saber ouvir é uma competência essencial. No entanto, saber ouvir não é apenas ficar em silêncio enquanto outra pessoa fala. Uma intervenção eficaz implica demonstrar que a mensagem escutada foi compreendida e ajudar a pessoa a organizar aquilo que está a viver e/ou a sentir.
É precisamente aqui que entra a reformulação, uma técnica de comunicação que permite devolver à pessoa aquilo que expressou de forma clara, estruturada e respeitosa. Quando utilizada corretamente, fortalece a relação de ajuda, facilita a regulação emocional e contribui para que a pessoa se sinta compreendida, sem julgamento.
Em seguida, explicamos o que é, para que serve, quais os seus principais tipos e vemos porque desempenha um papel tão importante nos primeiros socorros psicológicos.
O que é Reformulação?
A reformulação consiste em devolver à pessoa aquilo que acabou de comunicar, mas de forma mais organizada, clara e objetiva. Não queremos repetir exatamente as mesmas palavras, interpretar aquilo que foi dito ou alterar o significado da mensagem. Pelo contrário, o seu objetivo é ajudar a pessoa a estruturar o pensamento e a clarificar aquilo que está a sentir.
Durante uma situação de sofrimento psicológico, é comum termos um discurso desorganizado, marcado pela ansiedade ou por emoções intensas. Nestes momentos, a reformulação funciona como uma forma de organizar o “caos emocional” e abrir espaço para que as pessoas se sintam verdadeiramente ouvidas.
Esta técnica deve ser utilizada com respeito, empatia e sem acrescentar interpretações pessoais ou julgamentos. O foco deve manter-se sempre na experiência da pessoa e não na opinião de quem presta apoio.
Para que serve?
A reformulação desempenha várias funções importantes, tornando a comunicação mais eficaz e contribuindo para o bem-estar emocional da pessoa. Entre as diversas funções, destacamos:
- Demonstrar escuta ativa: ao reformular, mostramos que estivemos atentos ao que nos foi dito e que temos interesse em compreender a mensagem. Esta atitude reforça e facilita a continuidade da conversa.
- Validar a experiência da pessoa: a reformulação transmite a ideia de que aquilo que a pessoa está a viver foi reconhecido e compreendido, sem emitir juízos de valor ou minimizar o seu sofrimento.
- Reduzir a intensidade emocional: quando alguém consegue colocar em palavras aquilo que sente e percebe que foi compreendido pelo outro, a intensidade emocional tende a diminuir.
- Estruturar um discurso confuso: em situações de elevada carga emocional, o pensamento pode tornar-se disperso. Reformular permite organizar as ideias principais e facilitar a compreensão da situação.
- Ganhar tempo para refletir: além de apoiar a pessoa, esta técnica também permite que o interveniente tenha alguns momentos para refletir antes de responder, evitando respostas impulsivas ou inadequadas.
Tipos de Reformulação
Nem todas as reformulações têm o mesmo objetivo. Podemos usar diferentes abordagens, consoante aquilo que a pessoa precisa naquele momento, por exemplo:
1. Reformulação Cognitiva: centra-se nos acontecimentos e nos factos relatados pela pessoa, organizando a informação sem fazer interpretações. Ajuda a organizar a situação apresentada sem acrescentar significados que não tenham sido expressos pela pessoa.
Exemplo:
Pessoa: “Desde que perdi o emprego está tudo um desastre.”
Interveniente: “Perder o emprego teve um impacto muito significativo na sua vida.”
2. Reformulação Emocional: neste caso, o foco está na emoção subjacente ao discurso da pessoa. Ao identificar e desenvolver a emoção observada, facilita-se a consciência emocional e promove-se um sentimento de compreensão.
Exemplo:
Pessoa: “Não sei como vou pagar as contas.”
Interveniente: “Parece que está muito preocupado e inseguro com esta situação.”
3. Reformulação Sintética: é particularmente útil quando o discurso é longo, disperso ou difícil de acompanhar. O objetivo aqui é resumir os aspetos essenciais daquilo que foi partilhado. Isto ajuda a pessoa a organizar mentalmente aquilo que está a viver.
Exemplo:
Pessoa: tem um discurso desorganizado e confuso durante vários minutos.
Interveniente: “Se percebi bem, está a sentir-se sobrecarregado, com medo do futuro e sem saber por onde começar.”
4. Reformulação Clarificadora: quando existe alguma informação pouco clara ou ambígua, é importante evitar interpretações precipitadas. Permite-nos aprofundar a compreensão através de perguntas abertas. Em vez de assumirmos o significado da expressão utilizada, convidamos a pessoa a explicar melhor o que quis dizer.
Exemplo:
Interveniente: “Quando diz que perdeu o controlo, o que é que isso significa para si?”.
O papel da Reformulação na Regulação Emocional
Um dos principais objetivos dos primeiros socorros psicológicos é ajudar a pessoa a recuperar um sentimento de segurança e estabilidade emocional. A reformulação contribui diretamente para esse processo.
Quando alguém percebe que foi compreendido, diminui a necessidade de repetir constantemente aquilo que sente. Além disso, esta sensação de compreensão reduz o sentimento de isolamento e fortalece a relação de confiança entre a pessoa e quem presta apoio. Ao mesmo tempo, a organização do discurso facilita a identificação das emoções e dos acontecimentos mais relevantes, permitindo que a pessoa tenha uma visão mais clara da sua própria experiência.
É importante lembrar que a reformulação não elimina o sofrimento nem resolve o problema que está na sua origem. O seu valor reside em criar um espaço seguro, onde a pessoa pode organizar pensamentos, reconhecer emoções e sentir-se acompanhada durante um momento difícil.
A reformulação é uma das competências mais importantes nos primeiros socorros psicológicos. Muito mais do que repetir aquilo que a pessoa disse, trata-se de organizar a informação, validar a experiência e facilitar a expressão emocional de forma respeitosa.
Quando utilizada de forma adequada, esta técnica melhora a qualidade da escuta ativa, fortalece a relação de ajuda e contribui para a regulação emocional da pessoa em sofrimento. Por isso, desenvolver esta competência é um passo essencial para qualquer pessoa que pretenda prestar apoio psicológico inicial de forma eficaz, humana e centrada nas necessidades de quem enfrenta uma situação de crise.
Os Primeiros Socorros Psicológicos (PSP) são uma abordagem de apoio humano, prático e imediato a pessoas em sofrimento emocional agudo devido a crises, traumas ou desastres.
O objetivo dos Primeiros Socorros Psicológicos é estabilizar, promover segurança, acalmar e proporcionar à pessoa recursos de ajuda. Não é terapia, mas sim um apoio inicial.
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